Na madrugada do sábado, dia 3 de janeiro de 2026, uma intervenção militar, promovida pelo governo estadunidense de Donald Trump, acabou sequestrando o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores. Uma ação que foi o resultado de inúmeras medidas vindas da Casa Branca ao longo do ano passado, como a classificação das organizações criminosas venezuelanas como terroristas, o deslocamento de tropas norte-americanas para a região, o bombardeio de embarcações supostamente vinculados ao narcotráfico, o fechamento do espaço aéreo e o bloqueio comercial do petróleo da Venezuela.
Apesar dos antecedentes do governo chavista, o ataque da maior potência mundial no país, é de fato ilegal, pois afronta o direito internacional, a Organização das Nações Unidas e até mesmo o Congresso dos Estados Unidos. O que gerou críticas da maioria dos líderes mundiais, de diversos espectros ideológicos, até de políticos da extrema-direita europeia, como a francesa Marine Le Pen. Já que além de ser ilegal, torna a ação normalizada, abrindo precedentes para que outros países pratiquem tais atos, como a invasão russa na Ucrânia, que acontece atualmente.
O chavismo chega ao poder em 1999, com o tenente-coronel Hugo Chávez sendo eleito por vias legais e democráticas, com uma política voltada para o social, como o combate à desigualdade social, o analfabetismo e a mortalidade infantil. Porém durante o seu governo e de seu sucessor, houve diversas transformações constitucionais, que deram margem ao autoritarismo, com o relacionamento corrupto do governo com as Forças Armadas e a dependência do Poder Judiciário junto ao Poder Executivo. O que resultou durante todos esses anos, o cerceamento da liberdade dos opositores ao governo chavista.
Mas quais são as consequências das ações dos Estados Unidos da América? Primeiramente, é um possível deslocamento de imigrantes para os países vizinhos, como o Brasil e a Colômbia, que sem o preparo necessário dessas nações sul-americanas em absolvê-los de forma decente dentro da sociedade, poderá acarretar em problemas sociais.
Segundo, é a incerteza política dentro da Venezuela, causada pelo vácuo de poder, pelos possíveis conflitos de interesses de grupos políticos locais e pelos interesses econômicos do governo norte-americano.
E o terceiro ponto, é o perigo que os Estados Unidos podem representar na manutenção e na integridade das soberanias de países que possuem governos que podem ser considerados, aos olhos dos americanos, como nocivos e independentes da esfera de influência norte americana, como também as atitudes das oposições políticas não democráticas que colaboram, encintam ou relativizam tais medidas, como a oposição bolsonarista em relação as taxações e as sanções contra o Estado Brasileiro.
Caso as falas do presidente Donald Trump se concretizem e o governo americano comece a administrar diretamente ou indiretamente a Venezuela, demonstrará que os reais motivos de intervenção militar vai além do tráfico de drogas, pois ano passado o governo americano anunciou o perdão a ex-presidente de Honduras condenado por narcotráfico, e vai além da ausência de democracia na Venezuela, já que o presidente estadunidense se relaciona com ditadores de diversos lugares do mundo. Ela tem natureza econômica e política, como as reservas de petróleo venezuelano e a influência dos russos e chineses sobre o regime chavista.
Então, ações em nome da democracia, mesmo que por bocas suspeitas, os seus fins, mesmo que belos, não justificam os meios. Pois a democracia não pode ser imposta via a força ou ameaça por qualquer potência estrangeira, vemos o fracasso durante a ocupação do Estados Unidos que invadiram o Afeganistão, Iraque e Líbia, em nome da democracia.
*As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião da JSB.






