A redação do Exame Nacional do Ensino Médio, ENEM, não é apenas uma avaliação de habilidades linguística e técnicas, mas também uma oportunidade para os estudantes refletirem questões sociais urgentes, colocando em prática o exercício da cidadania, o pensamento crítico sobre a sociedade e de propor soluções viáveis para os problemas que afetam diretamente milhões de brasileiros e brasileiras.
Os temas das redações do ENEM, têm um papel fundamental na formação crítica sobre os principais problemas sociais do Brasil. Ao abordar questões como desigualdade social, racismo, violência, educação e sustentabilidade, o ENEM estimula os estudantes a refletirem sobre essas realidades e a desenvolverem propostas de intervenção para melhorar o cenário social do país, o que fortalece o desenvolvimento da responsabilidade social.
A herança africana é um dos pilares cruciais da formação da cultura brasileira, refletindo-se em múltiplos aspectos da sociedade, como a música, a culinária, a dança, as religiões e as expressões artísticas. No entanto, a valorização dessa herança ainda enfrenta uma série de desafios no Brasil, um país marcado por uma longa história de escravidão e discriminação racial. A exclusão e marginalização das contribuições africanas têm raízes profundas nas estruturas socioculturais, econômicas e políticas, e combatê-las exige esforços constantes e abrangentes.
Um dos principais desafios para a valorização da herança africana é o racismo estrutural, ainda presente em diversas esferas da sociedade brasileira. Apesar da população negra representar mais de 50% da população total, as desigualdades socioeconômicas, educacionais e políticas continuam a marginalizar os descendentes de africanos.
O racismo estrutural se manifesta de diversas formas, como a falta de acesso à educação de qualidade, a discriminação no mercado de trabalho e a violência policial, que atinge de maneira desproporcional a população negra. Esse cenário contribui para a invisibilidade e desvalorização das culturas afro-brasileiras, perpetuando estereótipos negativos e limitando o reconhecimento do legado africano na sociedade.
Outro desafio significativo é a sub-representação da herança africana nas instituições culturais e educacionais. Apesar de algumas iniciativas de valorização, como a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, muitos currículos escolares ainda negligenciam ou reduzem a contribuição africana ao Brasil a um tema marginal, centrado apenas no período da escravidão.
A ausência de uma abordagem ampla e diversificada, que abarque as influências africanas na formação da identidade nacional, dificulta a construção de um senso de pertencimento para os afrodescendentes e impede que a sociedade compreenda a importância dessa herança, o que ao menos possa conhecer.
Além disso, a falta de apoio institucional e financeiro para a preservação e promoção das manifestações culturais de origem africana é outro obstáculo. Muitos quilombos e comunidades tradicionais, que preservam saberes e práticas ancestrais, enfrentam dificuldades para manter suas atividades e transmitir sua cultura para as novas gerações. A escassez de recursos para os espaços culturais, como terreiros de candomblé e escolas de capoeira, é um reflexo de um sistema que frequentemente marginaliza a cultura negra em favor de outras formas de expressão, e as vezes de forma institucionalizada.
No campo da mídia e das artes, apesar do aumento da presença de artistas negros e das discussões sobre representatividade, ainda há um longo caminho a percorrer para que a cultura afro-brasileira seja vista como parte integrante da cultura nacional, e não como uma “alternativa” ou “exótica”. O mercado artístico e as produções midiáticas, muitas vezes, promovem uma visão estereotipada da negritude, associando-a a traços negativos ou limitando a visibilidade dos afrodescendentes a contextos de pobreza e violência. Por outro lado, a cultura afro-brasileira é rica e diversa, abrangendo desde a culinária até a arte contemporânea, e precisa ser reconhecida por sua amplitude e profundidade.
Dado o exposto, a valorização da herança africana no Brasil demanda uma transformação profunda das estruturas sociais, culturais, econômicas de inclusão. É necessário garantir um acesso igualitário à educação de qualidade, promover a representação positiva e diversificada de afrodescendentes na mídia e nas artes, e apoiar as manifestações culturais afro-brasileiras, sobretudo por parte do Estado brasileiro, reconhecendo-as, também, como elementos centrais da identidade nacional. Somente assim será possível superar os desafios históricos impostos pelo racismo e pela marginalização, e permitir que a herança africana brilhe na plenitude de sua contribuição social para a história brasileira.
*As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião da JSB.






